Em tempos de canetas emagrecedoras, índices elevados de obesidade e promessas de resultados milagrosos nas redes sociais, a Nutrição enfrenta desafios para o exercício ético e responsável da profissão. Neste 31 de agosto, Dia do Nutricionista, o Conselho Regional de Nutrição da Décima Região (CRN-10) chama atenção para temas que vêm impactando diretamente a atuação dos profissionais e a relação da população com a alimentação. Para marcar a data, o Conselho promoveu, na última sexta-feira (28), um evento de atualização profissional que colocou em debate dois desses desafios: a neurociência do comportamento alimentar e o uso da inteligência artificial na Nutrição.

A presidente do CRN-10, Vânia Passero, explica que a escolha dos temas reflete questões cada vez mais presentes no cotidiano da profissão, conectando a complexidade da relação humana com a comida aos avanços tecnológicos que também começam a transformar a atuação profissional. “A missão do CRN é promover a saúde da população à medida que orienta, disciplina e fiscaliza o exercício profissional do nutricionista e do técnico em Nutrição e Dietética. Por isso, buscamos contribuir para que os profissionais estejam preparados para lidar com questões que impactam tanto o seu cotidiano de trabalho quanto a própria sociedade”, afirma. Em Santa Catarina, o CRN-10 registra 10.809 nutricionistas ativos.

Comportamento alimentar além do “coma menos”

A neurociência do comportamento alimentar foi abordada pela professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Dra. Luciana Antunes. Do “vício em açúcar” e o “comer por recompensa” a questões mais complexas, como compulsão e transtornos alimentares, esse campo de investigação ajuda a compreender os diferentes fatores envolvidos nas escolhas e nos comportamentos relacionados à alimentação. Nesse contexto, o trabalho do nutricionista vai além da prescrição de dietas e envolve a compreensão das dimensões biológicas, sociais e comportamentais que interferem na relação das pessoas com a comida.

Ao ser questionada sobre a exposição de resultado de exames na redes sociais, a Dra. é enfática. “A era digital e toda a sua evolução apresenta um desafio importante aos profissionais que precisam compreender que lugar de estudo de caso é no hospital escola e na universidade, não nas redes sociais.” Ela ressalta, ainda, que utilizar de “antes e depois” como atrativo para novos pacientes, além de ser infração ética, prevista no Código de Ética e de Conduta do Nutricionista, pode ser enquadrado como propaganda enganosa, cabendo a órgãos como o Procon aplicarem as penalidades vigentes.

Inteligência artificial: ferramenta ou substituta do nutricionista?

Assim como ocorre em outras profissões, nutricionistas têm incorporado cada vez mais ferramentas de inteligência artificial à rotina de trabalho. Se, por um lado, a tecnologia pode contribuir para otimizar processos e apoiar determinadas atividades, seu uso também exige atenção à segurança de dados, à responsabilidade técnica e aos limites éticos da atuação profissional.
Quais são os limites éticos e regulatórios para seu uso? A IA pode substituir o trabalho de nutricionistas “humanos”? Até onde a IA pode participar de atividades relacionadas ao atendimento? Essas questões foram debatidas pela nutricionista Liliana Bricarello (CRN-10 5881) e pela advogada Sara Kremer de Souza (OABOAB 55230/SC), procuradora jurídica do CRN-10.
O exercício da Nutrição no ambiente digital já vem sendo debatido pelo Conselho. Em julho, o CRN-10 publicou uma Nota Técnica sobre o uso da Inteligência Artificial na atuação do nutricionista, disponível em seu site. Também lançou o guia “As mídias sociais aliadas da(o) nutricionista: Nutricionista como influência ou como referência?”, que propõe um olhar crítico e construtivo sobre a presença dos profissionais nas redes sociais. As palestras promovidas pelo CRN-10 em alusão ao Dia do Nutricionista estarão disponíveis no canal do Conselho no YouTube.

Supervisionar e conferir foram as principais indicações das painelistas, que ressaltaram a importância de não acreditar 100% em tudo que a IA trás de conteúdo. Segundo elas, a IA sempre vai ter uma resposta, porque ela não pode deixar de te responder.

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Créditos: Carolina Arruda e Amanda Ramos